Nós, do Sul Global, temos chamado atenção para as assimetrias históricas e o legado colonial que não apenas persistem como estão se aprofundando. Nesse contexto de crise multidimensional, a pressão dos centros capitalistas para extrair recursos naturais na periferia se intensificou, o que fez aumentar a dívida ecológica. Mas não se trata somente da expansão do já conhecido paradigma extrativista no Sul; a novidade hoje é a multiplicação de megaprojetos corporativos e de novas pressões extrativistas em nome da "transição verde": cobalto e lítio para a produção de baterias de alta densidade energética, madeira balsa para turbinas eólicas, minerais para a transição, terras-raras, hidrogênio verde etc. Tudo voltado à exportação, para garantir o processo de descarbonização dos países do Norte, sem considerar que isso significa uma nova fase de expropriações na vida de milhões de mulheres, homens e crianças do Sul. A história se repete: o Sul Global é visto como "zona de sacrifício" e como fonte inesgotável de recursos para os países do Norte, não apenas para os que são carentes dos chamados recursos energéticos críticos (como os europeus) mas também para os que os possuem (China, Estados Unidos, Rússia). Fica claro que, diante deste novo extrativismo ou colonialismo energético, não podemos mais acatar qualquer proposta de transição.
Neste livro, procuramos demarcar os eixos da disputa com um olhar gestado no Sul Global — e na América Latina, em particular. Estamos convencidos de que devemos disputar e deixar bem claro o que entendemos por "transição ecossocial" e sobretudo por "transição energética", sempre à luz das inúmeras experiências de lutas, propostas, estratégias e alternativas desenvolvidas por comunidades, povos, movimentos e organizações que atuam na defesa dos territórios nesta região do mundo. […] estamos convencidos de que não podemos sucumbir à tentação distópica de pensar o colapso civilizacional como um destino único e inevitável. Em uma época de distopias globais, na qual "é mais imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo", de acordo com a célebre frase de Fredric Jameson, nosso objetivo é repensar um horizonte emancipatório sem cair nas repetições cegas do passado nem em novos dogmatismos, sem nos deixarmos capturar pela figura do desencanto de certas esquerdas nem pela melancolia paralisante do catastrofismo. Esta é, desde já, uma aposta na resiliência, em um novo pacto com a vida.
— Maristella Svampa & Enrique Viale, na Introdução